Remorsos

Uns dos principais factores de sofrimento dos pais são os remorsos. Os remorsos são uma espécie de parasitas que se alimentam da boa consciência dos pais e que são propagados pelos filhos com o objectivo maléfico de lançar uma epidemia de remorsos de forma a enfraquecer-nos. É basicamente isto. Os remorsos são o cavalo de Tróia dos filhos, são uma forma maliciosa de invadirem quem lhes parece mais forte, e maior, atingindo directamente no coração do adversário: os pais.

Quem é pai ou mãe, sofre ou já sofreu desta doença, desta fraqueza, deste martírio. 
E as razões são várias, dolorosas e numerosas:
  •  Ou porque nos zangamos com toda a razão e a criança teve uma reacção absolutamente desproporcionada desatando aos gritos em absoluto sofrimento como se não houvesse amanhã; 
  • ou porque vamos sair à noite e o menino na hora da despedida baixou a cabeça e perguntou em voz baixa “vai sair outra vez…é?”; 
  • ou porque mandamos a criança para a cama só pelo sossego que a ida para a cama de um filho proporciona, e essa é, por isso, uma atitude egoísta; 
  • ou porque achamos que devíamos brincar mais com os nossos filhos e zangarmo-nos menos; 
  • ou porque simplesmente trabalhamos e passamos pouco tempo em casa, e é por causa disso que a criança teve negativa a Matemática. 
  • Todos os dias, todos os pais têm pelo menos seis ou sete vezes remorsos. Um drama.


É certo que os remorsos, ao contrário de outras doenças, não matam, mas moem. E as crianças sabem isso. Sabem e controlam os pais e as mães através dos remorsos, como se fossem um comando à distância: “Podes ir jantar fora, mas vais-te arrepender: o bifinho vai saber a vinagre. Ehehehe…”.

É urgente que seja lançado um Plano Nacional de Erradicação dos Remorsos e da Promoção do Alivio de Consciência. Mais uma vez, somos nós contra eles, os filhos. 

Devia existir um Plano Nacional de Erradicação dos Remorsos.  
Inês Teotónio Pereira

Pois é, isto de ser Pai/Mãe é mais complicado do que se imagina.

Comentários

  1. Caro confrade Ricardo!
    Perdoe-me pelo indelicadeza em não visitar mais amiúde seu imperdível espaço cibernético... A justificativa é que não está aparecendo as atualizações das suas publicações no meu vagão do Expresso do Oriente o que me levou a acreditar que você estava temporiamente sem publicações... Pode me colocar de castigo no milho e como penitência assistirei um episódio inteiro da série televisiva "The Flying Nun" entre nós "A Noviça Voadora"...
    Folguedos a parte, o artigo da atuante cidadã Inês Teotónio Pereira me fez refletir se de fato devemos sentir remorsos na relação que temos com nossos filhos, porque sempre procuramos prepará-los para o exercício da cidadania plena, todavia as atribuições e atribulações do cotidiano nos deixam com a sensação de que deveríamos ser mais presentes, mas reitero, será que devemos sentir remorsos se temos como escopo dar-lhes um modo de vida primoroso?!...
    Caloroso abraço! Saudações atentas!
    Até breve...
    Joã Paulo de Oliveira
    Diadema-SP

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