Febre

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AS CRIANÇAS são todas hipocondríacas: deliram com remédios e quase todas se pelam por ficar doentes. Uma virozesinha, uma tosse de cão, uma dorzinha de barriga ou de cabeça, um enjoo, enfim, qualquer coisa que justifique bloquear uma ida à escola e crie uma enorme confusão na rotina familiar é boa. Ficar doente em criança é um luxo, um privilégio em que se ganha direito a tratamento VIP. Cair na cama é o mesmo que passar um ou mais dias num hotel de cinco estrelas, onde se come o que se quer e quando se quer, vê-se televisão na cama, recebem-se presentes, atenção e mimo, muito mimo. Hoje até os remédios sabem bem.

No entanto, no que diz respeito a esta temática da doença, quando nós éramos crianças tínhamos muito mais sorte. E porquê? Porque dantes não havia termómetros digitais: os termómetros digitais vieram acabar com qualquer possibilidade de inflacionar a febre e de prolongar as férias de cama. Agora já ninguém aquece o termómetro no cobertor, não dá tempo. Os termómetros demoram segundos a revelar a verdade sobre a febre e não os cinco longos minutos que antigamente o mercúrio demorava a subir. 

Hoje em dia as crianças não têm hipóteses: uma criança que se atreva a aldrabar a febre para faltar às aulas arrisca-se a ser arrastada pelos pais a meio da noite para as urgências de um hospital qualquer, correndo sérios riscos de ficar mesmo doente. Dantes não havia este perigo; ficávamos na cama durante três dias a chá, torradas e beijinhos. Bons tempos, em que a febre não era urgente, era apenas febre. 

Inês Teotónio Pereira
in "Jornal I" 15.01.2011

Comentários

  1. Gostei de ler a Inês.
    De facto os tempos mudam caro amigo e se mudam!!!!
    No teu tempo era diferente e no meu ainda mais.
    No meu tempo a minha irmã estava mesmo doente de internamento e eu... nem uma dorzinha tinha para poder faltar às aulas. Todos os dias tinha que preparar as aulas, só, porque a Mãe tinha ido visitar a mana ao Hospital e eu não me atrevia a chegar à escola sem os TPC feitos.
    Nem vale a pena escrever. A vida no meu tempo era mesmo difícil mas o que isso implicou de preparação para a Vida não tem comparação.
    Quem dera que as crianças de hoje fossem mais preparadas para trabalhar sem a ajuda dos Pais e sabendo lidar com as contrariedades da vida, que nunca se sabe a montanha que aí vem.

    Abraços

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  2. Também me lembro como era bom ficar doente, quando fui operada às amígdalas, tive direito a oito dias com gelados e tudo, na altura era um luxo.

    Beijinhos

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  3. Tite,

    Eu ainda sou do tempo do termómetro de mercúrio, tenho 39, logo ainda tentei ludibriar os meus pais para não ir à escola, aliás, sem qualquer sucesso.

    A minha mãe parecia que tinha um termómetro na ponta dos dedos, para ela, nunca tínhamos febre, embora estivéssemos muito "abatidos" (como dizia a minha avó).

    Fê, nunca tive problemas de garganta, logo gelados só no Verão! :DDD

    P.S. Querida Tite, então o seu Sporting? Não acha que demoraram um ano e meio a perceber o óbvio, isto é, que o "Leslie Nielsen" de Alvalade, leia-se, Bettencourt não era a pessoa indicada para tão nobre cargo?
    Espero que o clube se levante para bem do futebol em geral, e da minha cara-metade em particular, é porque lá em casa ninguém quer ser do Sporting, nem por solidariedade com a mãe!

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